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Ampliação de 101 mil hectares em áreas protegidas busca evitar novos incêndios, preservar biodiversidade e reforçar o papel do bioma na regulação do clima global

Por Redação do Um Só Planeta – Publicado no O Globo

Menos de 5% do Pantanal está sob algum tipo de proteção legal. E, desse total, menos de 30% é destinado à preservação integral. Embora ainda mantenha cerca de 80% de sua cobertura natural, o bioma é um dos menos protegidos do Brasil, uma fragilidade que ficou evidente nos anos críticos de 2020 e 2024, quando incêndios de grandes proporções devastaram o Pantanal e chamaram a atenção da imprensa internacional.

Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense — Foto: Zig Koch

Neste ano, as queimadas caíram 99%, mas especialistas alertam que a trégua é temporária. A combinação de seca prolongada, rios assoreados e avanço das atividades humanas ameaça levar o Pantanal a um “ponto de não retorno”, aquele limite crítico além do qual os danos ambientais se tornam irreversíveis. O alerta é ainda mais grave se lembrarmos que suas áreas alagadas armazenam até quatro vezes mais carbono que florestas, funcionando como barreiras naturais contra incêndios e reguladores do clima global.

A maior planície alagável do mundo sob pressão

Nos últimos 40 anos, o Pantanal perdeu 21% de sua superfície aquática. Apenas em 2024, a redução chegou a 61% em relação à média histórica, segundo o MapBiomas. Essa transformação ajuda a explicar a intensidade do fogo que tomou conta do bioma no ano passado.

“O Pantanal está cada vez mais sujeito a ações de desmatamento. Continua secando. Por isso é fundamental proteger as poucas áreas permanentemente alagadas que ainda restam”, alerta Nuno Rodrigues da Silva, chefe do Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense.

A principal razão do desmatamento no Pantanal é a expansão da pecuária extensiva, ou seja, a transformação de áreas naturais em pastagens para criação de gado. Além da pecuária, a abertura de estradas e pequenas áreas agrícolas contribuem para dividir o Pantanal, tornando-o mais vulnerável a incêndios e degradação. Outros fatores agravantes incluem a mineração e extração de areia em rios, construção de hidrelétricas e barragens que alteram a dinâmica hídrica e até atividades turísticas mal planejadas em áreas sensíveis.

Ampliar Unidades de Conservação

Para evitar que tragédias semelhantes se repitam e reduzir a pressão sobre o bioma, uma coalizão de organizações ambientais — entre elas a Rede Pró-UC, SOS Pantanal, Onçafari e Panthera Brasil — lançou a Aliança Pantanal, que defende a expansão de duas Unidades de Conservação (UCs) estratégicas: o Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense e a Estação Ecológica de Taiamã.

A proposta, que conta com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), já passou por consultas públicas em Poconé e Cáceres (MT) e prevê a adição de 101 mil hectares protegidos. A medida agora aguarda sanção presidencial. Se aprovada pelo Governo Federal, a medida aumentará a rede de proteção integral no Pantanal de 4,5% para 5,2% , um passo considerado fundamental para enfrentar secas históricas e novas ondas de incêndios.

“Criar e ampliar essas áreas requer uma ação conjunta de governos, poder público e sociedade civil. Foi o que vimos nas consultas públicas, em que a população local, estudantes, pesquisadores e organizações mostraram a importância de conservar para todos aquilo que é de todos”, afirma Angela Kuczach, diretora executiva da Rede Pró-UC.

Parque e Estação em expansão

Criado em 1981, o Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense é até hoje o único da categoria no bioma. A ampliação proposta de 48 mil hectares busca incorporar áreas de transição e secas, garantindo maior conectividade entre ecossistemas e fortalecendo ações de fiscalização e combate a incêndios.

Já a Estação Ecológica de Taiamã, também criada em 1981 e reconhecida como Sítio Ramsar, deve ganhar quase 53 mil hectares adicionais, incluindo áreas consideradas berçários naturais para mais de 130 espécies de peixes.

Estação Ecológica de Taiamã — Foto: Palê Zuppani

“Há décadas desenvolvemos pesquisas que mostram a importância de proteger o campo próximo à Estação de Taiamã. Trata-se de um refúgio para a onça-pintada, para a fauna aquática e para a regulação climática do Pantanal”, explica Solange Ikeda Castrillon, professora da Universidade do Estado de Mato Grosso.

Do fogo à esperança

Estudos mostram que municípios com UCs de proteção integral registram, em média, 11% menos desmatamento e evitam emissões de CO₂ em larga escala. Além disso, o ecoturismo, impulsionado pela observação de onças-pintadas e avesa parece como alternativa econômica sustentável para comunidades locais, em contraposição à pecuária extensiva e à mineração.

Se 2024 foi o ano da devastação, a expectativa é que 2025 marque o início de uma virada. A ampliação das áreas protegidas deve ser oficializada até novembro, quando Belém (PA) sediará a COP30, encontro global sobre clima em que o Brasil será colocado sob os holofotes.

“A criação e a ampliação de Unidades de Conservação são respostas estruturais a crises ambientais recorrentes. Mais que proteger fauna e flora, elas garantem a segurança hídrica e climática de milhões de pessoas”, reforça Angela Kuczach. Preservar o Pantanal, dizem especialistas, não é apenas uma decisão local, mas compromisso global com o futuro do clima, da biodiversidade e da humanidade.

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