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Lucas Altino  — Rio de Janeiro

Mesmo após sete operações de combate neste ano, balsas de garimpo ilegal se multiplicam no Sul do Pará, que vai receber em Belém a COP30 em novembro. Os garimpeiros atuam na Terra Indígena Kayabi e no Refúgio de Vida Silvestre Rio São Benedito e Azul, criado pelo governo paraense em 2021. Segundo moradores, o garimpo nunca foi tão intenso quanto agora, principalmente devido à cumplicidade de alguns indígenas, que cobrariam comissões para permitir a extração de ouro. A Funai confirmou o problema.

Balsas de garimpo no Rio São Benedito, dentro da Unidade de Conservação: alta do preço do ouro levou a intensificação da atividade ilegal — Foto: Arquivo pessoal

A região fica em uma parte do país que historicamente sofre com o garimpo. Mas até dois anos atrás, o território conhecido como Gleba São Benedito, que abrange os rios São Benedito e Teles Pires, próximo à divisa com o Mato Grosso, não era tão explorado, apontam moradores. Agora já são mais de cem balsas que deixaram assoreado trechos importantes de navegação e de habitat de peixes como o tambaqui, o tucunaré e o pirarara. Entre eles, a confluência do São Benedito com o Teles Pires.

O maior chamariz é o preço do grama do ouro, cotado hoje a cerca de R$ 630, em uma valorização de mais de 100% em um ano.

— Tem gente que vendeu casa e moto para investir em balsas, como foi na Serra Pelada — conta um morador da região que não quer se identificar, referindo-se à corrida do ouro que houve no estado entre a década de 1980 e o início da década de 1990.

A presença de pessoas armadas, ameaças e suspeita de atuação de facções criminosas, conforme os relatos, fazem com que muitos evitem se expor com as denúncias. No mês passado, ativistas e moradores contrataram uma empresa especializada em perícias ambientais para averiguar a atuação dos garimpos ilegais. Com as evidências reunidas, um relatório foi mandado a autoridades estaduais e federais.

Mais de 100 balsas de garimpos foram deflagradas nos últimos meses entre os rios São Benedito e Teles Pires — Foto: Editoria de Arte

Fauna ameaçada

O relatório constatou que uma semana após uma operação do Ibama, em junho, garimpeiros já haviam retornado. Em vistoria no dia 6 de agosto ao longo dos rios São Benedito e Teles Pires, a partir da cidade de Jacareacanga, foram encontrados mais de 25 de equipamentos de extração de ouro, entre cavas de mineração, rampas de rejeitos, caixas de concentração, mangueiras e maquinário pesado.

Garimpeiros estariam afundando balsas ao descobrirem as operações. Mesmo se parte da estrutura for perdida, a maioria prefere reconstruir a balsa depois da fiscalização.

Diretora-executiva da Rede Nacional Pró Unidades de Conservação (Pro-UC), Angela Kuczach alerta que a região abrange uma das maiores biodiversidades do planeta. Ela lembra a descoberta de uma nova espécie de primata em 2018, o zogue-zogue da Alta Floresta, uma das mais raras do mundo, na área agora ameaçada pelo garimpo.

Na última década, a pressão do desmatamento se intensificou, o que motivou a mobilização pela criação do refúgio da vida silvestre. Em 2021, o governo do Pará criou a unidade de conservação e estudos atestaram a ocorrência de animais como a onça pintada, o gavião-real, a ariranha e o jacaré-açu. Por falta de estrutura, a floresta segue ameaçada, segundo Kuczach.

— A unidade foi criada, mas não foi implementada. Não tem base, estrutura, presença dos órgãos estaduais — lamenta. — A gente achou que conseguiria segurar o que restou de floresta, mas continua com desmatamento ilegal e fogo. Quando achou que não podia ficar pior, veio o garimpo. A foz do Rio São Benedito praticamente não existe mais.

Há dois anos, a Rede Pro-UC denunciou a presença de envolvidos com o garimpo no Conselho Gestor da unidade, mas “pelo visto nada foi feito”, lamentou a diretora. No entanto, o Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará disse que não recebeu denúncia formal e não houve inclusão de novos integrantes no conselho desde o ano passado, quando o colegiado foi instituído.

Diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Jair Schmidt destaca que o instituto está atuando região e já foram destruídas mais de 70 balsas. Ele acrescenta que, na comparação com 2022, neste ano houve redução de 30% da área desmatada pelo garimpo na Amazônia, muito em função das ações de fiscalização. Mas, admite, o problema ainda está distante de uma solução.

— O câncer que se instalou na Amazônia e é profundo e a quimioterapia é diária — resume.

O Ibama acrescentou em nota que atua na região com a Operação Xapiri, em parceria com o Bope de Mato Grosso e a Funai, e entre janeiro e agosto, inutilizou 34 balsas em sete ações de fiscalização que somaram R$ 19,5 milhões em apreensões. O governo do Pará diz que sua operação mais recente aconteceu em junho, com apreensão e inutilização de 20 balsas, além de desmobilizar um estaleiro ilegal e quatro acampamentos dentro do refúgio.

A exploração ilegal do ouro resultou, segundo a análise, no assoreamento dos rios Teles Pires e São Benedito, possível poluição por mercúrio, destruição de habitats aquáticos, erosão do solo, alteração da qualidade da água e perda de biodiversidade. “Tais danos inviabilizam o aproveitamento turístico da região”, acrescenta o relatório. O território tem pousadas para pesca esportiva, que movimentam o turismo local.

Indígenas cobram comissão para instalação de balsas do garimpo

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