Por  O livre, Rodrigo Vargas rodrigo.vargas@olivre.com.br

Ameaçada de revogação por parte dos deputados estaduais, unidade de conservação reúne características do Pantanal, Cerrado e Amazônia

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Áreas alagadas, savanas a perder de vista e florestas com árvores de porte amazônico. O Parque Estadual da Serra de Ricardo Franco, em Vila Bela da Santíssima Trindade (540 km), abriga em seus 158 mil hectares uma rara síntese dos biomas que compõem o patrimônio natural de Mato Grosso. Ali, o Pantanal, a Amazônia e o Cerrado se encontram e se interconectam, gerando ambientes de transição que fazem nascer e florescer uma grande diversidade de espécies da fauna e da flora – muitas delas raras, outras endêmicas, ou seja, que só ocorrem ali.

Este caldeirão de vida, que se completa com as distintas faixas de altitude de seus morros, platôs e chapadas, já atraía o interesse de exploradores e cientistas muito antes da criação do parque, em 1997. Foi por lá que o lendário coronel britânico Percy Henry Fawcett esteve, em 1908, para delimitar a fronteira boliviana com o Brasil. De volta para casa, relatou um cenário infernal, com “anacondas de 20 metros” e “panteras ferozes”, que teria inspirado o escritor Arthur Conan Doyle a produzir seu clássico “O Mundo Perdido”.

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Também foi por lá que, nas década 1970, o botânico Paulo Günter Windisch, um dos mais renomados do país, identificou e coletou um grande acervo de amostras vegetais que até hoje é objeto de dissertações e teses nos herbários das universidades brasileiras. Atualmente, quatro projetos de pesquisa estão em andamento na área do parque. E novas espécies de plantas, mamíferos, lagartos e insetos, alguns ainda sem nome, estão em fase de descrição.

“A produção científica que já foi feita e está sendo feita em Ricardo Franco é um poderoso argumento contra a falácia de que se trata de uma unidade de conservação sem serventia ou inexistente”, afirma o biólogo Thiago Izzo, professor do Departamento de Botânica e Ecologia da UFMT.

 

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Discocyrtanus canjinjim, espécie de Opilião encontrada apenas na Serra de Ricardo Franco. Foto: Adriano Kury

Em um manifesto assinado juntamente com o também biólogo Rafael Vieira Nunes, Izzo lembra que, entre as justificativas para a criação de uma unidade de conservação, está a “geração de conhecimento científico”. “Este é um patrimônio intelectual, ambiental, que tange a saúde, a cultura, o lazer e a economia de toda uma nação”, diz o texto.

A defesa da relevância científica da unidade se deu no contexto do processo de revogação, por parte da Assembleia Legislativa, do decreto que criou o parque. A iniciativa, que foi suspensa temporariamente para “mais estudos”, pode também resultar em redução do perímetro da unidade, que abriga espécies ameaçadas de extinção, como a lontra e a ariranha.

“Além da fauna emblemática, o parque tem a potencialidade de representar um refúgio regional de espécies com potencial econômico, como banco de genes utilizáveis na agricultura, provedor de serviços ambientais que garantem os alimentos produzidos pela agricultura ou mesmo remédios para doenças que afligem a humanidade”, afirmam os pesquisadores.

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Parque Estadual da Serra de Ricardo Franco. Foto: Mario Friedlander

A presença de espécies de grande porte, como a onça pintada e a raríssima harpia, torna, segundo Izzo e Nunes, a preservação de Ricardo Franco ainda mais necessária. “O parque abriga centenas de espécies ameaçadas dentre as quais pássaros migratórios, lagartos que só ocorrem ali, peixes, ariranhas, lontras, a majestosa Harpia, além do maior predador das Américas, a onça-pintada”, relatam.

CNPq/Reflora

CNPq/Reflora

A relevância do parque, opina Izzo, não se restringe ao seu perímetro e entorno. Além funcionar como um corredor ecológico para o bioma amazônico, o parque funciona como espécie de anteparo a resguardar a cabeceira dos principais rios que formam o pantanal. “O que fica notório é que o problema não é a falta de funcionalidade do parque. Talvez seja notória a falta de funcionalidade dos assessores científicos dos deputados da Assembleia Legislativa”, criticou.