Por Maria Tereza Jorge Pádua, ((o))eco 

 

Tive a felicidade de fazer uma tese de mestrado com um nome esquisito: Feromônios sexuais da ordem lepidóptera. A tese, como é usual, não interessa a ninguém, mas ao fazê-la descobri algo muito importante para a preservação da biodiversidade: a presença humana interfere muito no equilíbrio da vida silvestre. No caso, apenas o uso de um bom perfume por um ser humano pode inviabilizar a cópula de insetos dessa ordem, pois interfere na liberação de feromônios fundamentais no jogo da atração sexual e da cópula. E daí? Bem, se não há cópula não há reprodução e garantir a reprodução natural dos seres vivos é um dos objetivos da proteção de áreas chamadas de unidades de conservação.

Alguns seres vivos têm suas áreas territoriais muito pequenas, como é o caso, por exemplo, do fóssil vivo Macroperipatus acacioi, que só ocorre na Estação Ecológica de Tripuí, com apenas 337 hectares, a 4 km de Ouro Preto, no estado de Minas Gerais. Este animal conhecido popularmente como onicóforo é talvez a espécie viva mais antiga do planeta com seus 500 milhões de anos. Aqui é bom lembrar que os dinossauros viveram de 150 a 200 milhões de anos atrás e que ainda haviam preguiças gigantes, mastodontes e tigres de dentes de sabre há apenas 20.000 anos, portanto o Macroperipatus acacioi é muito mais antigo que os dinossauros e conseguiu sobreviver a todas as mudanças climáticas pelas quais passou nosso planeta.

Felizmente graças à sua descoberta e raridade, pela primeira vez no Brasil, foi criada uma unidade de conservação para se proteger um invertebrado. Primeira e única vez, diga-se de passagem. A Estação Ecológica de Tripuí foi criada em 1978, por mais incrível que possa parecer. O animal está tão ameaçado por viver somente naqueles 337 hectares, que a visitação é proibida na Estação Ecológica de Tripuí. E há que se entender que se queremos preservar esses indivíduos que existem há 500 milhões de anos, não há como mostrá-los ao público por mais curiosidade que possam despertar. Verdade seja dita que um indivíduo foi visto uma vez em outra Estação Ecológica de Minas Gerais, a de Peti. Mas um indivíduo não salva uma espécie, embora outros espécimes possam lá existir. O Macroperipatus acacioi está em todas as listas de animais ameaçados de extinção e também no Livro Vermelho da União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN).

No caso da flora acontece o mesmo. Os exemplos abundam, mas vou me restringir a dois. A Prepusa hookeriana, da família Gentianaceae, é espécie endêmica do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, que abriga 66 endemismos da vegetação nativa e que não deve ocorrer em mais de poucas centenas de hectares da Serra. Alguns mencionam que a espécie ocorre em apenas 200 hectares do Parque Nacional, mas essa informação ainda carece de certeza científica. Esta espécie é conhecida vulgarmente como cravina do campo e evidentemente está na lista oficial de plantas ameaçadas de extinção, lista esta promulgada pela portaria IBAMA nº. 37 N de 1992, na categoria de “em perigo”.

Outro caso de uma série de endemismos bem pronunciados ocorre no Parque Nacional da Serra do Cipó em Minas Gerais, nos seus campos rupestres, a começar pela canela de ema da espécie Vellozia piriseana, que só existe por lá e que, além disso, sustenta uma orquídea também endêmica a Constantia cipoensis; até a canela de ema gigante Vellozia gigantea, com exemplares muito grandes e bem velhinhos com seus 600 anos, ali existentes portanto, antes da chegada do homem branco por essas bandas. As velósias gigantes ou canelas de emas crescem 1 metro por século e como lá existem indivíduos de mais de 6 metros, se afere sua idade. Novamente são verdadeiros fósseis vivos que podem ser dizimados da face da Terra somente com uma queimada que até pode ser de pequena extensão. A botânica Nanuza Meneses professora da USP e uma caríssima amiga me relatou que nesses campos rupestres podem ter endemismos que ocupam poucas dezenas de hectares. É assustador quão frágil pode ser a vida de certas espécies mais raras ou exigentes.

Fatos científicos acima relatados demonstram claramente que precisamos de áreas protegidas e até mesmo de áreas protegidas sem a presença humana, ou com uma presença muito eventual e cuidadosa. Os responsáveis pelas áreas protegidas, bem como os especialistas em biologia da conservação e áreas afins podem compreender e demonstrar tal necessidade. Por isso o zoneamento existe nas unidades de conservação e principalmente e até mais urgente e necessário naquelas categorias que admitem a visitação pública, como é o caso dos parques nacionais e estaduais.

É motivo ainda que, sem planos de manejo que fazem o zoneamento das unidades de conservação, as autoridades constituídas não queiram abri-las ao turismo. É realmente muito temerário se permitir muitas atividades recreativas em parques nacionais ou estaduais, nos casos em que ainda não se dispõe da informação científica mínima para evitar que o próprio manejo possa prejudicar, ou até ser um fator de desaparecimento de espécies. A avaliação ecológica rápida, técnica hoje muito utilizada como base para planos de manejo de áreas protegidas pode, também, evitar que os gestores cometam erros drásticos contra o mesmo meio ambiente que lhes compete proteger. Mas, de fato, o nome área protegida trata disso mesmo, ou seja de proteção do patrimônio natural tanto como as áreas urbanas ou rurais tombadas tratam de proteção do patrimônio cultural. Se não fosse necessário fixar restrições para seu uso ninguém perderia tempo e dinheiro fazendo as leis que as respaldam, nem em estabelecer e proteger esses locais.

Mas é compreensível que os setores interessados no uso imediato de áreas protegidas, quer sejam os mesmos públicos ou privados, não queiram esperar por muitos estudos, ou, ainda, nem pelos mais fundamentais e básicos. Mais compreensível ainda porque, em geral, eles não têm formação acadêmica na área. Como meio ambiente virou moda, todo mundo se diz ambientalista e, mais perigoso, se arvora em querer entender e ditar normas sobre o assunto. Meio ambiente é como time de futebol, onde todos damos palpites e queremos meter o bico. Sempre digo que qualquer um, de qualquer outra profissão que não médico, não pode entrar em um hospital e operar ou medicar doentes, mas na nossa área de manejo de vida silvestre é o que de mais comum ocorre. Muitos querem palpitar apenas por palpitar, às vezes até com boa fé. Muitos querem ajudar e não sabem bem como. A grande maioria dos amadores atrapalha quando quer fazer prevalecer sua visão sobre a de especialistas, ou quando quer fazer prevalecer sua vontade a despeito de pareceres contrários de especialistas no assunto.

Como em todas as áreas da ciência, manejar com propriedade os ambientes reservados para proteger a biodiversidade, ecossistemas e habitats, exige conhecimento prévio. Conhecimento de preferência acadêmico e muitos anos de experiência, pois brincar de mexer com a vida, embora não seja a humana é querer ser Deus, ou mais que Deus e as conseqüências sociais nefastas podem até ultrapassar aquelas dos erros médicos

Manter-se o equilíbrio da vida selvagem na natureza é tão frágil e difícil, na grande maioria das vezes, que é assunto para gente grande e não um brinquedo nas mãos daqueles que não conhecem nem o alfa e nem o beta do tema.