Por Giovana Girardi, Estadão Sustentabilidade

Maria Tereza Jorge-Pádua, responsável pela criação de várias unidades de conservação no Brasil em meio ao regime militar, recebeu a medalha Phillips, concedida pela União Internacional de Conservação da Natureza, que reconhece serviços excepcionais na conservação da natureza

Maria Tereza, ao receber o prêmio durante congresso internacional da IUCN no Havaí. Crédito: Giovana Girardi

Maria Tereza, ao receber o prêmio durante congresso internacional da IUCN no Havaí. Crédito: Giovana Girardi

HONOLULU – A engenheira agrônoma e ecologista brasileira Maria Tereza Jorge-Pádua, considerada a mãe dos parques nacionais no Brasil, foi premiada na noite desta terça-feira (6) no Havaí (madrugada de quarta em Brasília) com a medalha Phillips, que reconhece serviços excepcionais na conservação da natureza.

Concedida pela União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN), a medalha, que leva o nome do médico e zoólogo John Phillips, pioneiro do movimento de conservação nos Estados Unidos, desde 1963 reconhece pessoas que contribuíram para o conhecimento e para a proteção da natureza, como o biólogo da Universidade Harvard Edward O. Wilson. É somente a segunda vez que uma mulher recebe a medalha. A anterior foi Indira Gandhi.

Maria Tereza, de 73 anos, fez história num momento em que o Brasil ainda não tinha a menor preocupação com questões ambientais. Em meio à ditadura militar, em 1968 ela começou a trabalhar para o antigo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), que depois viraria o Ibama, e logo depois se tornaria diretora de Parques Nacionais.

Naquela época, a situação não era propícia para a conservação: a Amazônia era vista como um local que o governo precisava ocupar mais para defender fronteiras do que para preservar; havia somente uma ONG ambientalista no Brasil; o IBDF vinha de uma junção de institutos do pinho e do mate, que atuavam pela exploração; e entre a meia-dúzia de pessoas que trabalhavam em prol do ambiente, praticamente só havia homens.

E apesar de tudo isso, ela e equipe conseguiram criar diversas unidades de conservação no Brasil. Com muita briga, mas também muita argumentação científica.

Como Maria Tereza lembrou em seu discurso de agradecimento, quando ela entrou no serviço florestal, o Brasil tinha apenas 14 parques nacionais e reservas biológicas, nenhum na Amazônia ou em áreas marinhas. No total, eles cobriam menos de 0,3% do território. Quando saiu, 18 anos depois, a proteção tinha sido multiplicada por cinco.

“Não tínhamos helicópteros, nem satélites a nosso serviço, nem computadores, muito menos GPS ou celular. Era um trabalho puramente de campo, com todos os seus riscos e limitações”, lembrou em seu discurso. E alertou: “Eu fui muito feliz servindo meu país e sua natureza. Mas, claro, estou muito preocupada em quanto a natureza ainda está sendo degradada até hoje”.

Às vésperas de receber o prêmio, Maria Tereza disse ao Estado que não queria falar da política atual, mas criticou: “Perdemos muita coisa nesse período, como a redução de algumas áreas. O Brasil ainda tem pouco representatividade em termos de costa e recursos marinhos. Hoje temos muitas unidades de conservação, mas poucas estão implementadas, estão abandonadas à própria sorte, com incêndio todo dia, com gado dentro. É muito preocupante.”

‘Fácil demais’. Sobre seu histórico, hoje ela relativiza os riscos e dificuldades e diz que, no final das contas, até foi “fácil demais” obter todas essas conquistas. Ao ser questionada sobre não se não foi contraditório que, ao mesmo tempo em que estava criando unidades de conservação, o governo investia em abrir a fronteira a oeste, fazendo programas para que agricultores ocupassem a Amazônia, deu uma resposta inesperada.

“Foi super contraditório, mas governos militares respeitavam ou tinham medo de ciência. Nunca entendi bem, mas foi fácil demais. Eu falava com presidente da República, eu ia lá explicar os parques nacionais. Levava as descobertas científicas de Paulo Vanzolini, que falava da teoria dos refúgios, de Philip Fearnside. Eu era muito brava, queria porque queria. E como tinha muita seriedade, uma argumentação científica importante, eles aceitaram. (O presidente João) Figueiredo assinou um mundaréu de parques num dia só”, contou.

Ele se refere à criação, em 21 de setembro de 1979, de 11 parques, cobrindo uma área de 8 milhões de hectares. Entre eles estavam os parques nacionais Lençóis Maranhenses, Pico da Neblina, da Serra da Capivara, do Jaú e as reservas biológicas de Atol das Rocas e do Rio Trombetas.

Este último, lembra, foi o mais difícil. O general Golbery do Couto e Silva, que era ministro-chefe da Casa Civil, era contra, por entender que poderia prejudicar a atividade de mineração de bauxita na região. “Ele me devolvia sistematicamente o processo com perguntas estapafúrdias”, disse.

No dia em que Figueiredo foi à sede do IBDF para a cerimônia de assinatura, Maria Tereza soube que uma dos decretos propostos não seria aprovado. Ficou desesperada, achava que era Trombetas, mas não era. “Chorei copiosamente, feito criança.”

Foi fundamental em todo esse processo a ajuda do almirante Ibsen de Gusmão Câmara (morto em 2014, aos 90), vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e engajado na proteção do mar. “Ele me arrumou entrevista com Maximilamo (Eduardo da Silva Fonseca), que era ministro da Marinha, para propormos o Atol das Rocas. Depois foi o parque nacional de Fernando de Noronha. Ele me abriu muitas portas.”

Reconhecimento. Ao citar as conquistas de Maria Tereza antes de lhe conceder a medalha, Inger Andersen, diretora geral da IUCN, destacou: “Maria Tereza teve uma contribuição extraordinária, é parte da história da conservação da natureza no Brasil. Foi a primeira mulher a fazer isso, colocando sua vida em risco.”

A premiação, que ocorreu durante o congresso internacional da entidade, foi comemorada por pessoas que hoje estão na linha de frente da conservação no Brasil. “Maria Tereza é uma das grandes ecologistas brasileiras, o que mais do que justifica esse importante e merecido prêmio”, afirmou José Pedro de Oliveira Costa, secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente.

Além dos parques que criou, ele destacou seu papel na consolidação da conservação no Brasil. “Juntos, ela e o almirante Ibsen de Gusmão Câmara fizeram parte do restrito grupo que propôs a primeira versão da lei do Sistema Nacional de Áreas Protegidas (Snuc)”, lembrou.

“Maria Tereza foi pioneira e guerreira. Com um discurso aguerrido e forte, foi responsável por fortalecer o nosso sistema de unidades de conservação ao promover uma visão de parques e de conservação integral. Foi a primeira pessoa a ter a visão estratégica de que era preciso conservar a Amazônia, o Brasil, na verdade”, disse Claudio Maretti, que recentemente saiu da presidência do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela gestão das unidades de conservação no Brasil.

“Além de construir um imensurável legado para o Brasil, tem atuação essencial ao inspirar e incentivar outros profissionais e instituições a ampliarem esse seu legado. Esta premiação concedida pela IUCN é um reconhecimento justíssimo tanto à Maria Tereza quanto às áreas protegidas criadas com sua contribuição”, afirmou Malu Nunes, diretora executiva da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, da qual Maria Tereza faz parte do Conselho Curador.

* A repórter viajou para Honolulu a convite da IUCN