Por Vandré Fonseca

Serra da Mocidade. Foto: Marcos Amend.

Serra da Mocidade. Foto: Marcos Amend.

Manaus, AM — Uma espécie ainda desconhecida de tico-tico, duas cecílias, um sapo, três pequenos mamíferos, seis peixinhos, dezenas de insetos, além de musgos e plantas. Na lista completa apresentada pelos pesquisadores estão cerca de 80 novas espécies confirmadas ou praticamente certas até agora, mas podem surgir outras. A expedição ao Parque Nacional Serra da Mocidade, em Roraima, deu no que se esperava, muitas novidades.

A expedição idealizada pelo ornitólogo Mario Cohn-Haft, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), foi a primeira a chegar ao alto da Serra da Mocidade, uma montanha com mais de 1500 metros de altitude, isolada no Oeste do Estado de Roraima. Com apoio do Exército, entre os meses de janeiro e fevereiro, ele levou uma equipe com cerca de 70 pesquisadores, que passaram 25 dias estudando e fazendo coletas na região. As descobertas foram apresentadas durante um Workshop realizado esta semana no Inpa.

A nova espécie de pássaro ainda não foi descrita em uma revista científica. Ele é parecido com o tico-tico-do-tepui, encontrado em montanhas do Norte da Amazônia, como Pico da Neblina e Monte Roraima. Ele possui uma plumagem esverdeada nas costas, diferente das costas negras do primo já conhecido. “A gente nunca espera que vai achar uma espécie nova de pássaro, porque as aves já são bem conhecidas”, diz Cohn-Haft. “Mas a Serra da Mocidade era o lugar onde ninguém nunca tinha ido com maior possibilidade de ter novidades”, completa.

Análises genéticas indicam que ele divergiu evolutivamente de outras espécies há 1,5 milhões de anos de divergência evolutiva. O isolamento da serra reservou muitas outras novidades que estão sendo descobertas pelos cientistas. A expedição encontrou apenas dez espécies diferentes de peixes acima dos 200 metros de altitude, mas seis delas novas para a ciência, são um bodó ou cascudo, uma piaba e quatro candirus.

A 1.350 metros de altitude, foi encontrada apenas uma espécie de candiru, que surpreendeu os pesquisadores devido ao seu comportamento. “Ele tem um comportamento de piaba, fica na água, enquanto aqui embaixo os candirus costumam se enterrar na areia”, conta o biólogo Romério Briglia Ferreira, administrador do Parque Nacional. Ele acredita que a falta de predadores tenha influenciado esse comportamento. “Lá não tem aves pernaltas que se alimentam de peixes, então ele não precisa se esconder”, teoriza.

A maior parte das espécies descobertas ainda não foi descrita oficialmente, mas inclui três pequenos mamíferos, entre eles um roedor e dois marsupiais. Há também espécies até agora desconhecidas de anfíbios, como duas cecílias, um caranguejo de água doce e 56 insetos. E ainda existem as plantas e dois musgos, descritos em um artigo científico há algumas semanas. O trabalho dos pesquisadores ainda não terminou, mas os números são surpreendentes, 5% de todas as espécies coletadas provavelmente ainda não haviam sido registradas.

O Workshop serviu também para discutir os próximos passos a serem dados na região, entre eles a elaboração de um Plano de Manejo. “O acesso é muito difícil, mas estamos conversando com os Yanomami sobre a possibilidade de visitas guiadas pelos índios à região”, conta Romério. Ele destaca também a possibilidade da área servir ao turismo de observação de pássaros e o turismo de pesca que ocorre em rios próximos ao Parque Nacional.

A Serra da Mocidade está dividida em três áreas, o Parque Nacional, com pouco mais de 350 mil hectares, um domínio do Exército e uma extensão dentro dos limites da Terra Indígena Yanomami. A expedição não chegou à Terra Indígena, onde estão as maiores altitudes da serra, que chega a quase 2 mil metros.